A 2ª Vara Cível da Comarca de Blumenau condenou uma incorporadora imobiliária ao pagamento de R$ 11 mil a título de danos morais devido ao atraso de 11 meses na entrega de um apartamento financiado pelo programa Minha Casa, Minha Vida. A decisão reconheceu que a frustração na expectativa do primeiro imóvel próprio, somada à longa mora que extrapolou inclusive o prazo de tolerância, ultrapassa o mero aborrecimento cotidiano.
Dessa forma, o Poder Judiciário catarinense reafirmou que contratos de financiamento bancário não podem prorrogar de forma unilateral os prazos assumidos no compromisso de compra e venda firmado diretamente com o comprador.
Consequentemente, a sentença fixa um importante precedente para adquirentes do mercado imobiliário em Santa Catarina, delimitando os riscos do empreendimento e afastando justificativas genéricas de caso fortuito ou força maior.
A validade do prazo contratual e a ineficácia das cláusulas do financiamento bancário
Na tentativa de afastar a sua responsabilidade, a empresa argumentou que a assinatura do contrato de financiamento com a Caixa Econômica Federal teria estipulado um novo cronograma para a conclusão do empreendimento.
Contudo, o juízo rejeitou expressamente a tese defensiva. Fundamentalmente, estabeleceu-se que as condições ajustadas entre a construtora e a instituição financeira não têm o condão de alterar retroativamente ou estender o prazo de entrega prometido ao consumidor no compromisso original de compra e venda.
Por conseguinte, o prazo contratual fixado para 26 de janeiro de 2024 — acrescido da tolerância legal e contratual de 180 dias (com limite final em 27 de julho de 2024) — permaneceu hígido. A entrega efetiva da chave apenas em 30 de junho de 2025 caracterizou o inadimplemento culposo por 11 meses consecutivos.
Mitos de defesa afastados: Chuvas recorrentes e problemas com terceirizados são fortuito interno
A decisão também apreciou e rejeitou duas justificativas frequentemente apresentadas por construtoras para eximir-se de indenizações:
- Eventos Climáticos no Vale do Itajaí: O magistrado registrou que, embora as severas intempéries registradas na região causem impactos, as chuvas intensas e enchentes no Vale do Itajaí possuem caráter recorrente e previsível. Assim sendo, tais ocorrências inserem-se no risco do negócio (fortuito interno), devendo ser previstas no planejamento técnico do empreendimento.
- Distratos com Empreiteiras Subcontratadas: Os sucessivos rompimentos de contratos com terceirizados decorrem exclusivamente de falhas na gestão operacional e financeira da própria incorporadora, incapazes de transferir prejuízos ao consumidor final.
Quando o atraso na entrega do imóvel gera dano moral indenizável?
Em regra, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) entende que o mero descumprimento contratual não gera dano moral presumido. Neste caso específico, todavia, o magistrado identificou elementos concretos para caracterizar o abalo extrapatrimonial:
- Extensão Temporal Elevada: A mora perdurou por cerca de 11 meses após o exaurimento da cláusula de tolerância de 180 dias.
- Caráter Social e Afetivo: Trata-se da aquisição do primeiro imóvel residencial da família, custeado via programa de habitação popular (Minha Casa, Minha Vida).
Portanto, a cumulação da vertente social do programa com o longo período de incerteza e privação do uso do bem justificou a fixação da reparação financeira em R$ 11.000,00. A decisão, proferida no processo n. 5010514-49.2026.8.24.0008/SC, é passível de recurso.
Na MHB Advocacia, prestamos assessoria jurídica especializada em Direito Imobiliário e Civil, representando compradores e investidores em ações de rescisão contratual, indenizações por atraso de obras e cobranças indevidas em Criciúma, com atuação em toda Santa Catarina, Rio Grande do Sul e no cenário nacional.
FAQ – Perguntas Frequentes
1. O contrato com o banco pode alterar a data de entrega estipulada com a construtora? Não. O entendimento consolidado pelo Judiciário é de que prevalece a data de entrega estipulada no Contrato de Compra e Venda assinado entre o adquirente e a incorporadora. Prazos previstos no financiamento bancário visam regular a relação entre o construtor e o banco, não podendo prejudicar o consumidor.
2. A construtora pode alegar atraso na obra por causa de chuvas intensas? Raramente. Em regiões como o Vale do Itajaí e o litoral catarinense, eventos pluviométricos são conhecidos e previsíveis. O prazo de tolerância de 180 dias já existe exatamente para absorver eventuais dias de paralisação por intempéries normais da região.
3. Todo atraso na entrega de imóvel gera direito à indenização por danos morais? Atrasos pequenos (de poucas semanas ou poucos meses dentro ou logo após a tolerância) geralmente geram apenas danos materiais ou multa contratual. No entanto, quando o atraso se prolonga por prazos expressivos ou envolve imóveis de interesse social/primeira moradia, o Judiciário reconhece o dano moral pelo abalo psicológico e frustração do planejamento familiar.









