Registrar imóvel em município vizinho não basta para afastar IPTU

A 1ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça de Sergipe (TJSE) anulou uma sentença de primeira instância e determinou a realização de perícia técnica em uma disputa tributária. Os desembargadores entenderam que o pagamento de impostos e a matrícula em um município vizinho não impedem, sozinhos, que outra prefeitura cobre o IPTU.

O caso envolve a região do Mosqueiro, na Zona de Expansão de Aracaju, área que protagoniza um histórico litígio territorial entre a capital e o município de São Cristóvão (SE).

O Caso: Contribuinte pagou imposto a São Cristóvão

Um proprietário de imóvel no povoado Areia Branca ajuizou uma ação para anular cobranças de IPTU feitas por Aracaju entre 2019 e 2022. Ele argumentou que o bem está matriculado em São Cristóvão e que já pagou os tributos a este município.

Em primeira instância, o juiz deu razão ao contribuinte, considerando a matrícula no cartório uma “prova robusta”. No entanto, a prefeitura de Aracaju recorreu, alegando que apenas uma perícia geográfica pode definir a quem pertence o território onde o imóvel está localizado.

A Decisão: Matrícula e recibos não afastam cobrança de IPTU

A relatora do recurso, desembargadora Ana Lúcia Freire de Almeida dos Anjos, acolheu o pedido do município de Aracaju. Ela explicou que a incerteza territorial na região é tão complexa que o próprio TJSE possui a Súmula 3, que impede o cancelamento automático de cobranças baseadas apenas na dúvida sobre os limites.

Os fundamentos da decisão foram:

  • Ônus da Prova: O contribuinte deve provar, de forma técnica e inequívoca, que seu imóvel não pertence ao município que está cobrando.
  • Necessidade de Perícia: Documentos cartoriais e comprovantes de pagamento a outra prefeitura não substituem o laudo de um perito geógrafo.
  • Presunção de Validade: A Certidão de Dívida Ativa (CDA) emitida por Aracaju permanece válida até que a perícia prove o contrário.

“A mera alusão ao fato de que foram efetuados pagamentos ao município de São Cristóvão não afasta a possibilidade de cobrança por Aracaju, sendo necessária a prova pericial”, observou a relatora.

O perigo da Bitributação em áreas de divisa

Proprietários de imóveis em zonas de expansão ou limites entre cidades frequentemente sofrem com a bitributação — quando dois entes cobram o mesmo imposto sobre o mesmo bem.

Como agir se receber cobranças de duas prefeituras:

  1. Ação de Consignação em Pagamento: Você deposita o valor em juízo e pede que o juiz declare qual município tem o direito de receber.
  2. Produção de Prova Pericial: Como reforçado pelo TJSE, o laudo técnico é a única ferramenta capaz de encerrar a discussão sobre limites geográficos.
  3. Verificação da Natureza do Bem: Em alguns casos, o imóvel pode ser considerado rural (sujeito ao ITR da União) e não urbano (IPTU), o que altera toda a estratégia de defesa.

Na MHB Advocacia, defendemos contribuintes contra cobranças abusivas e bitributação, garantindo que o imposto seja pago ao ente correto e de forma justa.

FAQ – Perguntas Frequentes

1. Posso me recusar a pagar IPTU para uma cidade se já pago para a vizinha? Não de forma automática. Se ambas as prefeituras consideram que o imóvel está em seu território, você precisará de uma decisão judicial para suspender uma das cobranças. Caso contrário, poderá sofrer execução fiscal e penhora de bens.

2. A matrícula do cartório não define o limite da cidade? Nem sempre. Muitas vezes o cartório de registro de imóveis está em uma cidade, mas o terreno, geograficamente, pertence a outra devido a mudanças em leis estaduais ou marcos geográficos.

3. O que é o Tema 400 e 559 do STF citados no caso? São decisões do Supremo Tribunal Federal que tratam de limites territoriais e da competência tributária de municípios em áreas de conflito. Elas servem como guia para que os juízes decidam casos semelhantes em todo o país.

4. Quem paga a perícia no processo de IPTU? Geralmente, quem pede a perícia ou quem tem o ônus de provar o fato. No caso de Sergipe, o TJSE entendeu que o contribuinte deve colaborar para provar que a cobrança de Aracaju é indevida.

Compartilhe esse artigo

Precisa de Assistência Jurídica?

Entre em contato conosco para discutir como podemos auxiliar você. 

Últimos conteúdos

Ajuda financeira familiar não justifica desconsideração inversa da personalidade jurídica na Justiça do Trabalho

Justiça do Trabalho rejeita IDPJ Inverso e decide que repasse familiar não justifica penhora em empresa do filho. Entenda com a MHB Advocacia.

noticia

Aprovada no Congresso PEC que põe fim à escala 6×1 com implementação gradual da jornada de 40 horas

Senado aprova PEC do fim da escala 6x1 com redução gradual da jornada para 40 horas semanais. Entenda os detalhes com a MHB Advocacia.

noticia

Aluguel arrecadado em área comum de condomínio deve ser dividido entre todos os proprietários

TJ-MG decide que aluguel de área comum de condomínio deve ser dividido entre os proprietários. Entenda com a MHB Advocacia.

noticia

Rejeição de manutenção de posse não gera ordem automática de desocupação do imóvel

TJ-MG decide que rejeição de manutenção de posse não gera ordem automática de reintegração sem título executivo. Entenda com a MHB Advocacia.

noticia

Paralisação de obra e falta de cronograma configuram inadimplemento antecipado e exigem devolução integral de valores

Justiça de SP reconhece inadimplemento antecipado e manda construtora devolver 100% do valor de imóvel com obra parada. Entenda com a MHB Advocacia.

noticia

Morar por décadas em imóvel da família não garante usucapião sem comprovação do animus domini

STJ decide que morar por anos em imóvel da família não gera usucapião sem prova de animus domini. Entenda com a MHB Advocacia.

noticia

Falha na checagem de documentos e recusa de seguro-fiança geram dever de indenizar proprietário de imóvel

A 20ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJ-MG) manteve a condenação solidária de uma imobiliária e de uma seguradora. Como resultado, as empresas deverão ressarcir uma

noticia

Princípio da saisine impede direito de representação quando herdeiro morre anos após o autor da herança

Justiça de SC aplica o princípio da saisine e veda direito de representação para herdeiro que faleceu anos após o pai. Entenda o caso com a MHB Advocacia.

noticia

Atraso em obra do Minha Casa, Minha Vida gera indenização de R$ 11 mil por danos morais em Santa Catarina

Justiça de SC condena incorporadora a pagar R$ 11 mil por atraso de 11 meses na entrega de imóvel do Minha Casa, Minha Vida em Blumenau. Saiba mais.

noticia